outubro 08, 2004

Outono Marcelista

O jornal digital Notícias Alentejo tem este oportuno artigo do jornalista Luís Rego:
“Para a liberdade de expressão começou o Outono marcelista. As folhas caducas caem, os ramos secos apodrecem e a árvore começa a ficar raquítica, o solo à sua volta aperta, aperta cada vez mais. A árvore não aguarda por novas fronteiras, mas sim por alguém que generosamente a regue e lhe dê o vigor de outros tempos e lhe permita viver em liberdade.

“Os factos até agora divulgados dão a entender uma promíscua relação entre interesses económicos e liberdade de expressão à mistura com interesses políticos. Num raciocínio simplista diria algo assim: alguém faz o favor a um terceiro se e só se se livrar de um outro. Existem neste contexto um sem número de problemas. A primeira pergunta que vem à cabeça é esta: será justo um militante de um partido expressar a sua opinião sobre determinado assunto ou assuntos? Do meu ponto de vista sim. Outra questão: será adequado que um ministro seja ele qual for emita opinião sobre o comentário tecido pelo anterior? Nada me parece mais democrático.

”Nova questão: o que se assistiu nos últimos dias poderá ser a condenação de alguém que cometeu o crime de delito de opinião? E quem o acusa tem todos os argumentos para sustentar as suas afirmações? Existirá por aqui uma, e ainda quero acreditar que assim seja, ténue tentativa de diminuir a liberdade de expressão de alguém?

”Diz-me um amigo, militante de um partido, que a disciplina partidária é algo importante. Ele exemplificava-me, perante a minha insistência em afirmar que se estava a voltar ao antigamente, que nada disso é verdade, pois, em seu entender, o professor militante de um partido devia respeitar aquilo que formalmente disse concordar no momento em que se filiou.

”Questionei o meu amigo sobre a eventualidade de os partidos assim se transformarem num rebanho de cordeiros. "Nada disso", respondeu. Acrescentando de imediato que a liberdade de expressão é valor fundamental da sociedade. "Como assim?", perguntei. Ele durante vários minutos voltou a falar sobre a disciplina partidária, o respeito pelo partido, etc, etc.

”Ou seja, tudo, mas tudo se pode dizer dentro de casa, fora de casa terá de existir alguma ponderação. Diz, ele que isso tanto se deve de aplicar ao simples militante de base como aos designados notáveis dos partidos.

"E quando o professor fazia os comentários e o PSD estava na oposição? A situação não era idêntica? Ou agora já não dão jeito a ninguém?", interroguei-o. A resposta foi clara, concisa e objectiva: já pensava o mesmo antes.

”Resta acrescentar que o meu amigo é militante do PSD e próximo da actual sensibilidade social-democrata que absolutamente comanda aquele partido.

”Para a liberdade de expressão começou o Outono marcelista. As folhas caducas caem, os ramos secos apodrecem e a árvore começa a ficar raquítica, o solo à sua volta aperta, aperta cada vez mais. A árvore não aguarda por novas fronteiras, mas sim por alguém que generosamente a regue e lhe dê o vigor de outros tempos e lhe permita viver em liberdade”.

Publicado por dizerbem em outubro 8, 2004 10:41 AM
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